Peço desculpas pela demora em continuar a história — é que o meu irmão comprou um Wii. Não é preciso dizer mais nada, é? :D
O telefone começou a tocar quando ele arrombou a porta dos fundos. Não fez questão de ser discreto, e subiu as escadas sem se preocupar com os rangidos de madeira velha. Eu já esperava por isso, já esperava por ele; desde que acabei ameaçando ir aos jornais e contar o que ele tinha feito com o meu aluno — e com os filhos de tantos outros! –, sabia que ele viria atrás de mim. Canalha.
Quando o telefone fez silêncio, ele já estava parado bem na minha frente. Um revólver apontado para mim e uma cara suada. Enxugou a testa com um lenço, e sem dizer nem mesmo uma palavra, disparou; caí no chão, o ombro ferido. Dor, dor, me arrastei em direção à janela como se isso adiantasse alguma coisa. Como é que chegou nesse ponto?, pensei.
Eu tinha é que ter me calado; o colégio de sílabas menores que fosse pro inferno, meu lado religioso não era lá grandes coisas mesmo. Mas não, vi aquele aluno chorando pelos cantos e resolvi me envolver. Foi isso: eu me envolvi, e agora estou aqui, sangrando e com dor.
Não, não, eu fiz bem. Aquele desgraçado merece morrer pelo que fez com o meu aluno, e pelo que fez comigo, tantos anos atrás. Como se eu pudesse me esquecer daquele rosto! Continua tendo aquele ar desdenhoso, só que com mais rugas. Já tinham se passado tantos anos assim? Por que diabos eu nunca fiz nada a respeito?
O telefone voltou a tocar, e eu fechei os olhos. Senti o filho da puta se aproximando sem pressa. Ele me empurrou com o pé, virando o meu corpo para que eu pudesse vê-lo. Para que eu pudesse ver o rosto que há tanto me perseguia, e que por tanto tempo desprezei. Não vivi para ler as manchetes do dia seguinte sobre um assassinato, num bairro tranqüilo e sem suspeitos. Um tiro no peito, e as minhas preocupações me deixaram. Nada mais importava. Enquanto eu morria, só queria saber quem me telefonava numa hora dessas.
Filomena, agora é sua vez!



Confesso que entendo menos da trama a cada capitulo que leio, e li os cinco, mas talvez tenha sido melhor assim. Agora posso imaginar um Sufixo indecente abusando de silabas menores que jogam Wii e lêem sobre astrônomos védicos, enquanto um adjetivador profissional é assassinado pelo seu rival vegan do tempo da colação de grau.
Tudo faz sentido.
Fiquei com vontade de fazer algo parecido entre os blogs da Brumtopéia. Por sinal, uns quatro anos atras decidimos escrever um conto coletivo numa festa de natal (ano novo?) na antiga casa da Paula, não?
O capítulo VI já está no ar. Confira clicando no link abaixo:
http://negrados.wordpress.com/2008/05/22/morrer-verbo-transitivo-cap-vi/