O Saussure gostava mesmo era da sincronia, e não da diacronia. Faz uns dias, fiquei pensando na sua analogia do jogo de xadrez. Dizia ele que, para uma pessoa que chegasse durante uma partida, as jogadas anteriores não seriam cruciais para a compreensão do estado atual do jogo. Ou seja, os jogadores não teriam nenhuma vantagem com relação a esse espectador.
Mas se o Saussure tivesse conhecido o Garry Kasparov, talvez ele tivesse reconsiderado.
Mestres de xadrez estudam seus adversários antes de uma partida. Afinal de contas, o que se chama de “estilo” de um jogador é apenas a previsibilidade humana com outro nome. Mas o caráter previsível não é restrito aos humanos: O próprio Kasparov, quando perdeu de um computador na década de 90, reclamou que não pôde ter acesso às partidas anteriores do adversário (o computador) para poder se preparar, enquanto os programadores responsáveis ficaram um bom tempo estudando suas jogadas para saber como era o “estilo Kasparov”. O que ele queria era tentar se familiarizar com o “estilo” da máquina.
Então OK, o espectador pode ser capaz de compreender a situação atual do jogo sem ter conhecimento dos estágios anteriores, mas só os jogadores podem arriscar um palpite decente sobre qual será a próxima jogada. Isso quer dizer que, prestando bastante atenção nos movimentos, sempre dá para arriscar um educated guess. Vai dizer que olhar pros estágios anteriores é perda de tempo, é…?


