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Archive for the ‘literatura’ Category

Você sabe que seu cérebro está começando a mostrar sinais de funcionamento bizarro quando, ao ler o sobrenome Quirk num texto acadêmico, pensa “Quaptain Quirk!” e se esborracha de rir do seu próprio pensamento.

Ou isso ou eu sou mesmo da turma dos geeks sem solução.

Apesar do quê, detesto Star Trek. Prefiro o Hitchhiker’s Guide do Douglas Adams! (os livros, não o filme!!)

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O Adjetivador voltou ao Café Ulisses ainda incomodado com o arrepio que percorrera seu corpo. Parou à porta, já com um pé do lado de dentro, e ficou observando Morfema ao longe durante alguns poucos momentos. Como era estonteante a mulher! Elliot estava definitivamente apaixonado. “Uma mulher que fala ‘egrégora’…!”, pensou admirado.

Sempre teve um fraco pelas meninas inteligentes. Mas essa era diferente: era inteligente e gostosa! Sentiu uma incontrolável vontade de botar a sua boca naquele vocabulário voluptouso, de se encher de prosa com aquela Morfema intrigante para o resto de sua vida. Ou só por uma noite, tanto faz.

Acalmou-se enquanto andava em direção à mesa, mas na hora de se sentar, acabou derrubando um dos copos de chope que Morfema havia pedido. Elliot detestava fazer o papel de atrapalhado na frente de mulheres bonitas, mas parecia que quanto mais bonita a mulher, maiores as chances dele fazer alguma trapalhada. O garçom veio e limpou a mesa, sem deixar de lado a cara feia.

– Mas então, você acredita que o Medalhão não sofreu um acidente, disse Elliot.

– Bom… se você prefere usar eufemismos…

“Eufemismos!”, pensou o Adjetivador, contendo um pequeno pulo de alegria.

– Ele foi morrido, Harper. Ninguém é tão estúpido a ponto de morrer batendo a cabeça numa cômoda.

– Pode me chamar de Elliot.

Disse isso acariciando as costas da mão de Morfema, que logo sorriu. Depois recolheu sua mão, como se sentisse vergonha de estar ali, naquele lugar tão decadente, e na frente de um adjetivador decadente. Morfema pigarreou, e depois continuou:

– O que você descobriu até agora?

– Não muito. Você sabia que seu marido possui um livro publicado?

– Sim, claro.

– Er… é, é só isso que eu descobri, disse Elliot fingindo estar sem-graça. A verdade era que ele havia descoberto muito mais, mas não queria revelar à Morfema. Pelo menos não ainda.

Morfema bateu a mão na mesa, fazendo os copos tremerem. Até Elliot tremeu. Acabou se perdendo por um segundo na imaginação de uma Morfema impulsiva e agressivamente sensual. Tremeu mais uma vez.

– O tempo está correndo, Elliot. E se a confraria resolver morrer mais alguém enquanto você está aí, apenas tentando descobrir alguma coisa?!

Desconcertado, o Adjetivador pediu desculpas e prometeu agilizar o seu trabalho. Deixou o dinheiro do chope sobre a mesa e se levantou, dizendo que, como havia muito a ser feito, ele precisava dormir cedo. Mentira óbvia. Enquanto Elliot saía dali, Morfema esboçava um sorriso totalmente ambíguo.

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Ele estava sentado na sua confortável poltrona quando a loira entrou e anunciou:

– Robert, querido. Vou pro quarto.

Robert não se moveu. O exterior do copo de whiskey que ele segurava já tinha várias gotículas e molhava o braço da poltrona, mas aquilo não parecia incomodar seu estado de aparente desligamento. A loira perguntou:

– Você não vem…?

– Já tô indo, murmurou Robert.

Tomou um gole e pensou que precisava dar um pé na bunda dessa garota. Ela era muito parecida com Jena e isso estava começando a deixá-lo irritado. Deu um suspiro; se soubesse que aquele idiota teria sido tão descuidado na execução da sua tarefa, Robert teria feito tudo sozinho. É isso. Se você quer algo bem-feito, faça você mesmo, pensou.

Agora era arcar com as consequências. Antes mesmo, ele protestou contra a decisão da confraria, pois sabia que essa história de fazer parecer um suicídio nunca dá certo. Mas agora que tudo tinha dado errado e a tarefa tinha sido realizada escancaradamente como um assassinato, a casa ia cair. Porra, não era pra fazer parecer que a Jena tinha sido morrida…!

Foi pro quarto cambaleando. Quatro doses de whiskey, pensou. Ou teriam sido seis? Tanto faz, tanto faz, quero a minha cama. E foi, mas ao se aproximar do quarto, viu a loira deitada na cama e pensou ter visto uma poça de sangue. Pensou ter visto Jena. Isso é real? Náusea, tontura. Caiu e bateu a cabeça numa cômoda.

***

Interrompemos a transmissão de Os Beijos Que Sonhei Pra Minha Boca para anunciar que Robert Drumpert foi internado essa madrugada no Hospital de Santa Cruz. Mais notícias após a novela. SFIX TV, o seu canal da informação!

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Uma hora o Morrer, verbo transitivo vai acabar, e aí terá início o nosso próximo romance policial, baseado na Teoria da Otimalidade! Uma história de conspirações, coalescência e identidades (aliás, muito poética a definição de coalescência — dois elementos de que se fundem num só)…

O título? Fear of Infinity.

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Adormeceu e sonhou que estava de novo em Paris. O sonho parecia um filme noir, com ele andando por uma rua deserta à noite usando sobretudo e chapéu. Vapor saindo de um bueiro. Entrou num bordel escondido numa ruela, cumprimentou o barman e acendeu um charuto. Pediu um martini, mas veio uma Caracu com gelo.

Excusez-moi, Monsieur…“, disse ao barman.

Sorry Mr. Harper, but this is only a dream! I’m afraid we’ve ran out of martini. Enjoy your Caracu on the rocks, chap.

Perplexo, Elliot olhou novamente para a sua Caracu aguada e viu, na borda do copo, uma pequena mulher se equilibrando. Era Jena, minúscula e ainda mais bela do que ele se lembrava. Estava vestida de fada, e fazia poses engraçadas para ele. Elliot olhou ao seu redor para verificar se era mesmo o seu único espectador ou se mais alguém partilhava dessa loucura. Quando olhou de volta para o copo, Jena dançava frevo com um guarda-chuva, sem nunca perder o equilíbrio.

O Sufixo se sentou ao seu lado no balcão. Estava vestido de cowboy e cuspia como se estivesse no Velho Oeste. Ao percebê-lo, Jena mergulhou no copo de Caracu. Elliot ergueu o copo para procurar a mini-Jena, mas não conseguia ver nada além de algumas pedrinhas de gelo. Maldita cerveja escura!, pensou. Pousou o copo no balcão e depois encarou o Sufixo, que o cumprimentou colocando a mão no chapéu.

De repente, tiros e gritaria. Elliot se jogou atrás do balcão enquanto os estilhaços das garrafas nas prateleiras caíam sobre ele. Correria, a música acabou. O pianista morreu? Silêncio. Elliot levantou a cabeça por cima do balcão e viu Morfema vestida de gângster, com risca-de-giz e um sorriso descarado. Caminhou felinamente até ele e encostou o cano da arma em sua testa. Elliot não se mexeu. Apenas virou os olhos para a sua esquerda e viu o corpo do Sufixo. Voltou a olhar nos olhos de Morfema.

“Onde estão as listas?”, perguntou Elliot.

Morfema respondeu com uma gargalhada e um disparo.

Era alguém batendo na porta de seu escritório, e Elliot acordou.

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Peço desculpas pela demora em continuar a história — é que o meu irmão comprou um Wii. Não é preciso dizer mais nada, é? :D

O telefone começou a tocar quando ele arrombou a porta dos fundos. Não fez questão de ser discreto, e subiu as escadas sem se preocupar com os rangidos de madeira velha. Eu já esperava por isso, já esperava por ele; desde que acabei ameaçando ir aos jornais e contar o que ele tinha feito com o meu aluno — e com os filhos de tantos outros! –, sabia que ele viria atrás de mim. Canalha.

Quando o telefone fez silêncio, ele já estava parado bem na minha frente. Um revólver apontado para mim e uma cara suada. Enxugou a testa com um lenço, e sem dizer nem mesmo uma palavra, disparou; caí no chão, o ombro ferido. Dor, dor, me arrastei em direção à janela como se isso adiantasse alguma coisa. Como é que chegou nesse ponto?, pensei.

Eu tinha é que ter me calado; o colégio de sílabas menores que fosse pro inferno, meu lado religioso não era lá grandes coisas mesmo. Mas não, vi aquele aluno chorando pelos cantos e resolvi me envolver. Foi isso: eu me envolvi, e agora estou aqui, sangrando e com dor.

Não, não, eu fiz bem. Aquele desgraçado merece morrer pelo que fez com o meu aluno, e pelo que fez comigo, tantos anos atrás. Como se eu pudesse me esquecer daquele rosto! Continua tendo aquele ar desdenhoso, só que com mais rugas. Já tinham se passado tantos anos assim? Por que diabos eu nunca fiz nada a respeito?

O telefone voltou a tocar, e eu fechei os olhos. Senti o filho da puta se aproximando sem pressa. Ele me empurrou com o pé, virando o meu corpo para que eu pudesse vê-lo. Para que eu pudesse ver o rosto que há tanto me perseguia, e que por tanto tempo desprezei. Não vivi para ler as manchetes do dia seguinte sobre um assassinato, num bairro tranqüilo e sem suspeitos. Um tiro no peito, e as minhas preocupações me deixaram. Nada mais importava. Enquanto eu morria, só queria saber quem me telefonava numa hora dessas.

Filomena, agora é sua vez!

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Um dia eu ainda me morro de rir das coisas que as pessoas falam, e das coisas que nascem de uma conversa de bar… ;) Começo então o projeto a seis mãos Morrer, verbo transitivo — acompanhem o desenvolvimento no blog do Adilson e no da Filomena.

Elliot Harper. Adjetivador Particular. Eram essas as letras no vidro da porta. Profissão ingrata, essa de adjetivador; minha mãe nunca entendeu minha escolha, falava que quem gosta de sair por aí adjetivando outras pessoas nunca toma um rumo próprio na vida. Talvez ela estivesse certa. Mas ela morreu, e eu me esqueci de tomar jeito.

Era uma tarde fria de outono quando ela entrou em meu escritório. Usava trajes de morfema, cuidadosamente arrumada e perfumada. Lábios vermelhos tão cheios que causariam uma bela confusão semântica em qualquer rapazote que tentasse lhe dirigir a palavra. Para preservar o seu nome, chamemos essa cliente de Morfema. E que Morfema…!

“Preciso que você fique de olho no meu marido”, disseram aqueles lábios enquanto ela ainda se sentava à minha frente. “Mas você tem que ser muito discreto”

O meu cigarro preso no canto da boca. Será que ela fuma?, pensei.

“Traição?”

“Suspeito que o problema seja um pouco maior”, disse a Morfema, abaixando os olhos. “Meu marido é o Sufixo da cidade”

Puta merda. Já tinha ouvido falar de vários escândalos envolvendo o Alto Sufixado do condado. Esses religiosos sempre se safavam por falta de provas, e os casos sempre acabavam sendo abafados. Contatos. Eles certamente tinham contatos nos jornais.

“Acusaram o meu marido de ter abusado de sílabas menores”, disse com os lábios mais vermelhos e menos cheios.

Sílabas menores! Esse Sufixo de merda só pode ser um doente. Era um caso perigoso, sem dúvida, mas ela estava disposta a me pagar mais do que o suficiente para correr o risco.

Havia algo em seus olhos que a denunciava. Ela não parecia esperar que eu comprovasse a inocência de seu marido; provavelmente queria era um bom motivo para pedir o divórcio. Já tinha visto fotos do Sufixo no jornal – era um homem feio e calvo. Provavelmente ela se casou com o sujeito antes dele ser nomeado Sufixo, mas não o amava. Isso. Ela não o amava.

Passo a bola pra Filomena!

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Hoje encontrei um bloco de anotações que eu usava faz tempo. Havia apenas alguns escritos e uns desenhos, coisas de pouca importância. Resolvi voltar a utilizar o bloco, afinal de contas tantas folhas em branco não poderiam ir ao lixo assim, sem mais nem menos. Arranquei algumas das que estavam usadas. Numa delas, duas sentenças soltas, uma abaixo da outra:

O veneno da madrugada
O outono do patriarca

Que seriam essas coisas? O que faziam essas duas sentenças poéticas no meu bloco de anotações tão não-lírico? Fui ao Google, e descobri que a culpa era do Gabriel García Márquez! O outono do patriarca é um livro seu, e O veneno da madrugada é um filme brasileiro (Ruy Guerra, 2004) baseado em La mala hora, também dele.

A letra parece ser minha mesmo, então agora só preciso lembrar por que diabos eu anotei essas coisas. E por que motivo anotei e não fiz nada a respeito (i.e. não li o livro nem vi o filme). Será que foi sugestão de alguém? Ou será que depois de ter lido o Crônica de uma morte anunciada, fiquei com vontade de ler mais e acabei me deparando com esses dois itens numa busca na internet? Mais importante: por que justamente esses dois, e não outros?

Só me resta ler o livro e ver o filme.

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